Ninguém segura esse Russo Louco
Anselmo Duarte
continua sendo nosso único Palma de Ouro
Entrevista
concedida a Roberval Lima, Sandro Fortunato e Anahi de Castro
Fotos: Sandro Fortunato
SALTO
(SP) - É
mais fácil o cinema brasileiro desencantar e ganhar um
Oscar do que tirar de Anselmo Duarte o título de único
Palma de Ouro do Brasil. Isso já dura 42 anos. De 1962,
quando O pagador de promessas ganhou o prêmio
máximo do Festival de Cannes, até hoje, nenhum
filme brasileiro repetiu o feito.
Enquanto,
em Cannes, Diários de motocicleta, de Walter
Salles, concorria à Palma de Ouro na 57ª edição
do Festival, Anselmo dizia: “Estou
correndo perigo de não ser mais o único Palme
D’Or
do Brasil”.
Dono de uma voz vibrante e cheio de histórias, o diretor
gravou um depoimento de mais de 3 horas para o site Memória
Viva, em seu apartamento na cidade de Salto do Itu,
São Paulo.
Aos
84 anos, Anselmo Duarte ainda mantém o jeitão
dos anos 50 quando ganhou outro título, este dado por
suas fãs e pela propaganda das empresas cinematográficas,
o de “maior
galã do cinema nacional”.
Vaidoso, quando soube que haveria fotos, pediu para fazer a
barba antes. No meio da entrevista, vendo a pequena câmera
apontada insistentemente para ele, pergunta: “Você
está fotografando ou filmando?”
Ao saber que a câmera podia fazer as duas coisas, comenta
com certo desprezo: “Aaaaaah...
tem certas modernidades que eu não adoto.”
Tudo bem, Anselmo, você pode.
Do
tempo em que molhava a tela na qual se projetava o filme no
Cine Pavilhão, em Salto, quando trocava impropérios
com o público que estava do outro lado e ganhou o apelido
de “Russo
louco”,
até a Palma de Ouro, passando pelos mal entendidos com
o pessoal do Cinema Novo, Anselmo fala ainda do atual cinema
brasileiro e conta histórias engraçadas sobre
sua infância e sobre sua meteórica passagem por
Hollywood.
Se
você perguntar onde está a foto de Anselmo Duarte
com a Palma de Ouro, responderemos com outra pergunta: você
teria coragem de colocá-la depois de ouvir do próprio
que jornalista não tem imaginação e que
já fez dezenas de fotos iguais a essa? Mas demos um jeitinho,
olha bem a foto que abre a matéria. (SF)
Como
começou sua ligação com o cinema ainda
em Salto? Fale sobre o Cine Pavilhão.
É
um caso único. Pouca gente sabe que se molhava a tela
no cinema porque é bem diferente hoje. Mas eu estou me
referindo ao cinema mudo. Aí dizem: “O
Anselmo é mentiroso”.
Quando não querem chamar de mentiroso, chamam de “criativo”.
Mas é verdade. O pior é que as testemunhas já
morreram. Eu sou o cara mais antigo daqui. Mas o Cine Pavilhão
era assim. O projetor de filme ficava atrás da tela,
que era um pano. Quando batia luz, passava para o outro lado.
Assim era o cinema mudo. Pelo menos aqui em Salto. Antigamente
era uma lente grande angular, na qual a imagem sai e já
abre. Então ficava perto da tela, a uns 5, 6 metros,
atrás. Era um só projetor e a cada dois rolos
tinha um intervalo de dez minutos. Então tinha sempre
dois garotos com uma seringa – feita num gomo de taquara
com um courinho na ponta – que sugava e espirrava água.
A gente ficava com aquele troço molhando a tela. Você
viu O crime do Zé Bigorna? Não tem a
cena lá, eles molhando a tela? Eu reproduzi essa cena,
só que não eram dois meninos, eu botei o Lima
Duarte e o Stênio Garcia.
E
como era o público do Pavilhão?
Ah,
tinha o diálogo com o público! Era um cinema poeira.
Então todo mundo falava, gritava. Durante o filme, todo
mundo conversava. Jogavam coisas na tela. E, nos intervalos,
a gente jogava água na tela, para esfriar. Conforme a
água batia na tela, ficava escuro. Aí o público,
que estava do outro lado, fazia assim (colocando as mãos
em concha na frente da boca): “Mais
para o centro, seu burro!”
E a gente jogando água. “Mais
no meio, eu falei!”
Ninguém me conhecia por Anselmo, ninguém me chamava
assim porque achavam um nome meio “amanteigado”
e eu era briguento. Eu era loiro e me chamavam de Russo Louco.
Aí diziam assim: “Ô,
Russo Louco, aqui embaixo, seu burro!”
E eu: “É
a puta que o pariu”.
Porque a gente xingava também. E tinha outro amigo meu,
o Zé Panela. Era aquele diálogo de xingação,
era uma briga gozada através da tela. E quando estava
terminada, eu dizia assim: “Agora
vá todo mundo à puta que os pariu”.
E o pessoal gritando: “É
louco! É o Russo Louco!”
Era uma pândega. As sessões eram concorridíssimas.
Já
se falou muito sobre Cannes e O pagador de promessas.
O que aconteceu depois disso?
Quem
é laureado em Cannes não precisa entrar na seleção.
É uma outorga que o Festival dá a todos os laureados.
Um dos privilégios é esse. Cannes tem um regulamento:
todo país pode concorrer com um filme mais os dos diretores
laureados. O Brasil é o único país da América
do Sul que pode concorrer com dois filmes. A única Palma
de Ouro da América do Sul é do Brasil. Um será
o que ele tem direito, que será selecionado aqui. O outro
vai sem seleção (que é o do diretor
laureado). Mas o filme, para sair, precisa de um visto
do Itamaraty, que é um órgão que deveria
saber de todas essas coisas, mas não sabe. Então
eu mandei o filme e disse para enviar para Cannes, que eles
(os organizadores do Festival) estavam esperando. Eles
estavam selecionando filmes no Itamaraty e teve um crítico
desses, lá no Rio, que barrou meu filme, o Vereda
de salvação. Ele barrou, disse que não
ia para Cannes. Um absurdo! Peguei um avião, fui para
o Rio de Janeiro, cheguei lá e disse: “Eu
mandei meu filme para os senhores remeterem para Cannes porque
o Brasil tem o direito de remeter dois: o que vocês escolherem
e o meu”.
E eles: “É,
mas o problema é outro. Não é que sejamos
ignorantes. O problema é outro. Tem gente de pés
descalços, gente do campo – que seriam os sem-terra
–, o senhor é comunista. O senhor só não
foi preso porque tem um nome...”
Uma coisa absurda! Um negócio de louco! Aqui no Brasil,
se você não é vencedor, “você
é fantástico, é formidável, não
tem chances, mas é ótimo”;
mas se você ganhar... “não
é tanto assim”.
Brasileiro tem isso de não gostar de quem vence. Tem
gente que diz que o Pelé não sabia jogar futebol!
Disseram que o filme não iria por problema político,
que eu era conhecido como comunista.
O
senhor chegou a ser preso durante a ditadura, acusado de ser
comunista?
Eu
entrei (para o Partido Comunista) não por convicção
política. Entrei por um abaixo-assinado que fizeram para
inscrever (tornar legal) o partido. Eu tinha um grande
amigo no Rio de Janeiro, que era comunista, Alinor Azevedo,
um grande jornalista, que me disse “assina
aí pra gente registrar o partido”.
Eu assinei. Mas nunca fui por convicção. Se fosse,
eu diria. Nunca liguei para nada. Assinei. Tá registrado?
Então, seja feliz. No dia em que tiraram o partido de
circulação invadiram a sede, no Rio, pegaram todas
as fichas e eu fui chamado. Não eram chamados todos.
Só as pessoas mais populares, os que têm comunicação
com o povo: artistas, políticos, intelectuais, jornalistas.
Esses eles prendem. São os primeiros. E eu fui. Chegou
um camburão na porta de onde eu morava, só que
eu não vi, morava em apartamento. E me disseram: “O
senhor foi testemunha de um acidente de trânsito. Morreu
uma pessoa e estão chamando o senhor para prestar depoimento.
É só chegar lá e dizer que não viu
nada”.
Eu me vesti e saí tranqüilo. Na porta do prédio,
ainda sem perceber nada, perguntei se iria no meu carro e disseram
que não. Foram me empurrando, abriram a porta e me jogaram
dentro do camburão. E eu não sabia porquê!
Quando cheguei na Central, estavam prendendo todo mundo. Quando
eu entrei... “Olha
tá chegando gente famosa! Comuna famoso!”
e “Pá!”
Começaram a dar umas bolachas. Bom! Eu já apanhei
muito por ser galã. Todo mundo queria bater. Então
fui aprender a lutar para me defender. Sou faixa-preta em Jiu-Jitsu.
Fui aluno do Hélio Gracie, fiz demonstrações
com ele no Maracanãzinho. No segundo tapa, eu quase quebrei
o braço do cara. Segurei, dei um balão nele...
e aí que eu apanhei muito mais, me arrebentaram! Apanhei
bastante! Mas foi porque reagi. Fiquei como comunista. Nunca
tive uma participação ativa. Mas saí no
mesmo dia. Liguei pro meu advogado, ele foi pra lá com
pessoas importantes e me tiraram de lá.
O
senhor tem ressentimentos em relação às
críticas do pessoal do Cinema Novo?
Vou
explicar como é que surge uma onda dessas. Eu posso dizer
algo para um repórter, algo que não tenha a menor
importância. Mas também posso dizer para outro
que não simpatiza comigo, que está me entrevistando
por obrigação, porque é a profissão
dele. Então ele põe aquilo que eu falei e mais
o que ele queria falar e não tinha coragem. E o troço
vai aumentando. Então um botou: “Todo
o Cinema Novo falava...”
O “pessoal
do Cinema Novo”
não falava nada. Um falou um dia. Outro aumentou
e assim foi. Muita gente do Cinema Novo se dava comigo. Uma
vez saiu algo e até hoje, 30, 40 anos depois continua.
Sabe por que é tudo uma onda? Porque quem inventou o
Cinema Novo fui eu. Eu inventei o Cinema Novo. Como? Eu estava
fazendo o meu primeiro filme, o Absolutamente certo,
que foi saudado quando saiu. Ninguém esperava nada do
“galã”.
Toda a imprensa acha que galã é burro. E saiu
que o Absolutamente certo era o cinema novo brasileiro.
Ainda não existia o Cinema Novo. Depois veio O pagador
de promessas. No livro do ano de Cannes tem sempre a justificativa
do porquê eles deram a Palma de Ouro para aquele filme.
E lá dizia que “esse
filme, sem dúvida, marca um cinema novo do Brasil”.
O pessoal do Cinema Novo já estava fazendo um filme.
Eram cinco diretores que estavam fazendo o Cinco vezes favela.
Tinha um guru da imprensa, o Alex Viany, guru dos jovens. Escritor,
jornalista, foi diretor também. Então ele veio
falar comigo: “Anselmo,
tem uns garotos aí que eu estou lançando e que
estão fazendo um filme que se chama Cinco vezes favela.
E nós soubemos que seu filme foi selecionado para Cannes
e o do Ruy Guerra para (o Festival de) Berlim. Nós
queríamos assistir os dois filmes”.
E daí passaram os filmes. Nessa sessão estava
toda a rapaziada que viria a ser o Cinema Novo: Cacá
Diegues, Leon Hirszman, Glauber Rocha – que já
me conhecia de Salvador, de quando eu estava filmando O
pagador de promessas –, Gustavo Borges, uns 10 ou
12 diretores do início do Cinema Novo. Quando terminou,
aplausos e mais aplausos. E todo mundo falava: “Anselmo,
você vai ganhar algum prêmio. É o melhor
filme já feito no Brasil!”
Todos falavam a mesma coisa. Mas, na verdade, eles nunca poderiam
imaginar que eu ganharia a Palma de Ouro. Achavam impossível
ganhar em Cannes.
Quando
isso ficou claro?
Eu
não voltei logo ao Brasil, porque quando você ganha
a Palma de Ouro, é convidado para tudo quanto é
festival, porque o de Cannes é o mais importante do mundo.
E todo festival em que eu ia, ganhava. Voltei com cinco prêmios.
Antes de chegar aqui, já percebi. De Cannes, fui para
Paris. Lá, telefonaram para mim e disse: “Anselmo,
sabe quem está aqui em Paris? Um grande amigo seu: o
Glauber!”
E eu: “Puxa!
Fantástico! Então segura ele aí, vamos
almoçar juntos”.
Quando cheguei, achei ele meio triste, chateado. “Chateado
quem está é todo aquele pessoal do Cinema Novo”,
ele disse. “Mas
como? Faz uns dez dias que saí de lá e estava
toda aquela festa! Chateados? Mas por que?”
E Glauber: “Anselmo,
eles não admitem que você tenha ganhado do Buñuel”.
Que imbecilidade! Eles não admitirem que eu tenha ganhado
do Buñuel? Para mim, melhor do que o Buñuel tinha
uns cinco lá. Quem gosta mesmo do Buñuel é
comunista, porque ele fala mal dos Estados Unidos, fala mal
do capitão, fala mal do patrão. Ele é um
diretor comunista. Os filmes dele são primários.
Eu tenho coragem de falar e provo. Mas comunista acha ele um
deus. (...) O filme do Buñuel era um que tem um monte
de gente dentro de uma casa de portas abertas e que não
consegue sair (O anjo exterminador). Uma fita chata,
imbecil, própria do Buñuel. Ele quer dizer que
é uma sociedade milionária que não sabe
qual é a saída. Vá à merda! Vai
sofrer assim nos quintos dos infernos! Cinema não foi
feito pra isso...
E
Hollywood?
Eu
estive em Hollywood. Fui levado pelo presidente e o vice-presidente
da Universal. Eu tinha ganhado cinco festivais internacionais
e os americanos pegam diretores assim e levam para lá.
Iam fazer isso comigo. Não que eu não quisesse.
Quer fazer, faça. Iam pagar em dólar. Mas é
que eu briguei antes do tempo, antes de receber o primeiro salário.
O presidente e o vice-presidente da Universal me colocaram numa
limusine que parecia um ônibus e fui conhecer os estúdios
da Universal. Chegando lá, eu vi aquele portão
largo, de ferro, muito alto, trabalhado, escrito Universal
Pictures em cima. Quando eu estava entrando, olhei para
o porteiro, fardado, de quepe, um coitado de um velho, que abriu
a porta. Eu passei rente a ele e levei um susto quando vi a
cara dele. Gritei: “Stop!
Stop the car! Stop!”
O carro parou, eu abri a porta e saltei. Cheguei pro porteiro
e falei: “Bernoudy,
como vai você?”
Ele foi meu diretor na Atlântida! O Luís Severiano
Ribeiro, grande exibidor do Rio, quando comprou a Atlântida,
contratou o Bernoudy, que era produtor em Hollywood, para vir
melhorar a Atlântida. Ele veio pro Rio, trabalhou, organizou
a Atlântida. Dirigiu meu primeiro filme lá,
Terra violenta. Ed (Edmond) Bernoudy adorava o
Brasil, adorava o Rio. Ficou dois anos no Rio, já falava
português. Foi assistente do John Ford. Era um bom diretor.
Eu conversava muito com ele, aprendi muito com ele. E aí
eu o vejo de farda e de quepe na porta da Universal. Eu saltei
e perguntei: “Mas
o que é que você está fazendo com essa farda
aqui?”
Meu professor, meu diretor, mas que coisa! A essa altura ele
já estava com uns 80 anos. Eu tirei o quepe dele, joguei
fora e falei: “Você
não vai ser porteiro aqui, não! Mas que país
é esse? Você foi diretor e lhe jogam aqui?! Deviam
lhe aposentar pelo menos! Vamos embora!”
Fiquei chateado. Daí eu cheguei no carro e falei para
o tradutor: “Fala
que esse homem não vai mais trabalhar aqui na portaria.
Que ele vai ser o meu primeiro assistente. E ele vai no carro
conosco”.
O presidente da Universal virava a cara para ele. Quando eu
saí de lá, falaram que ficava para depois o acerto
do meu contrato. E sabe o que eles alegaram? “Mas
como?! Nós estamos contratando um gênio”
– porque, para eles, ganhar aqueles prêmios todos
era ser gênio – “estamos
contratando um gênio para melhorar nosso estúdio
e ele foi aluno do nosso porteiro?!!”
Acabou. Não me contrataram. A minha carreira foi a mais
curta de um diretor em Hollywood.
O
senhor tem acompanhado as nossas produções atuais?
Eu
tenho visto bons filmes brasileiros. Mas o cinema brasileiro
passou a ser dirigido por pessoas que têm títulos
e são muito jovens. O que é ter título?
É o cara que vai para a faculdade cursar Comunicação
e depois faz uma especialização chamada Cinema.
E geralmente é gente que tem posses. Então ele
termina e mostra o diploma para os pais. E aí, porque
tem um diploma, ele vai dirigir. O pai, que tem bons relacionamentos,
arruma financiamentos e tal. Geralmente ele faz um filme. E
não faz nunca mais nenhum. Porque não sabe dirigir.
(...) A imprensa não quer saber se ele está dirigindo,
se demorou, se foi o pai dele quem pagou, se até aquela
data ele não ganhou nenhum centavo... pega e esculhamba:
é burro, não sabe dirigir. A maior parte não
faz o segundo filme.
O
senhor gostou de alguma produção brasileira recente?
Central do Brasil.
Dirigido
pelo Walter Salles, filho de banqueiro...
Eu
acho que, no momento, ele é o melhor diretor brasileiro.
Eu já vi um outro filme dele que também gostei.
E já fui assistir porque era dele. Não o conheço
pessoalmente. Tenho um olho clínico bom. Eu estou correndo
perigo de não ser mais o único Palme D’Or
do Brasil.